Já conhece a Nova Rede Nacional de Urgência e Emergência?

O Despacho nº 13377/2011, criou a ‘Comissão para a Reavaliação da Rede Nacional de Emergência e Urgência’ e foi publicado em Diário da República a 6 de Outubro de 2011.

Surpresa: em Setembro de 2011 e antes de existir qualquer reunião da mesma, já existia uma versão do relatório final…! Como é possível???

Na verdade o relatório, com data de Setembro de 2011, é subscrito pelo Presidente da anterior Comissão das Urgências (que é também um destacado membro da nova Comissão) e aparentemente terá sido realizado para o Grupo Técnico da Reforma Hospitalar.

No entanto, se esta visão é integrada no Relatório do Grupo Técnico da Reforma Hospitalar, qual o interesse de ser nomeada a nova comissão só para as urgências? E se a nova comissão tem um parecer diferente do conteúdo deste documento, não existirão no final duas comissões com dois relatórios divergentes sobre a mesma situação? Se um dos objectivos fundamentais do novo Governo é extinguir grupos de trabalho, fundações, cargos e afins, nomear comissões com funções sobrepostas pode não ser a melhor ideia …

E se o autor é um dos membros mais destacados do Colégio da Especialidade, isso significa que esta posição reúne o consenso da Ordem dos Médicos…

Mas ultrapassada a questão da forma e focando na questão do conteúdo, o autor do Relatório final já decidiu sobre o resultado final?!

A propósito, não haverá conflito de interesses? O subscritor pretenderá com este exercício aumentar, de sobremaneira, as competências da instituição a que pertence, em detrimento de toda a reflexão existente neste domínio e até …. das próprias conclusões da CTAPRU que na altura se debruçou sobre este tema e que era por si presidida?!

Mas quanto ao conteúdo:

  1. Introdução interessante, mas com a finalidade de induzir e sustentar as conclusões desejadas;
  2. Não é referida nenhuma avaliação que consubstancie as decisões, mas tal não constitui um problema – as conclusões já estão feitas antes sequer da obtenção e consolidação dos dados (ou da sua mera apresentação). Assim poupa-se tempo, dinheiro e a possibilidade de qualquer contraditório;
  3. Número de atendimentos, complexidade dos casos, percentagem de internamentos e de transferências para outras instituições, estruturas e equipamento existente, recursos humanos disponíveis e formação, modelos de organização, rede de transportes inter-hospitalar (não confundir com o INEM que tem competência e realiza transportes pré-hospitalares) ….. – nada disso será importante… caso exista pode depois ser adicionado como anexos ao Relatório …. as conclusões estão já ‘fechadas’;

Algumas das conclusões a realçar:

  1. ‘Abrir Consultas Abertas no Porto, Lisboa e Coimbra’ … ‘em horário alargado nas 24h’… traduzindo: criar SAP´s mas com outro nome, para retirar doentes aos SU hospitalares; ora aí está algo totalmente alinhado com a reforma dos cuidados de saúde primários!!! Vai ser interessante esta opção de deslocalizar os médicos de família das consultas programadas para estas Consultas Abertas (isto vem completamente ao contrário daquilo que se tem vindo a fazer no SNS e que é acabar com estes tipos de consulta e atribuir todo o tempo de trabalhos às listas, mesmo que isso signifique ter mais utentes, mas também valorizando a intersubsituição).

Vão ter que dizer aos profissionais das USF: têm carga horária livre? Não façam intersubsituição, venham trabalhar na CA!

E a mensagem para os Utentes é clara: não marque uma consulta no seu médico de família; quando quiser desloque-se ao SAP,  sem marcação e é atendido pelo primeiro médico que lhe aparecer (com um pouco de sorte manda-lhe repetir todos os exames e muda-lhe a medicação crónica…)!

A conclusão é clara: aumenta os custos; desorganiza os serviços; piora os indicadores de saúde …

  1. Acabar com os Serviços de Urgência Polivalente das Unidades Hospitalares de Vila Real e de Vila Nova de Gaia. Como é possível terminar com estes serviços que têm sido cuidadosamente concretizados, aliás de acordo com a indicação da última Comissão liderada pelo pp autor..? Que vão fazer aos investimentos realizados (de sublinhar que foram feitas obras profundas, no valor de alguns milhões de euros, no sentido de dotar estes dois SU de condições para funcionar como SUP)? Isto só é perceptível numa estratégia de propiciar protagonismo a um determinado Hospital e obrigar os doentes e as ambulâncias a percorrer ainda mais KM e logo para um Hospital no centro da cidade, com dificuldades de acessos.
  2. Acabar com o Serviço de Urgência Polivalente de Évora (o único de toda a região do Alentejo e no qual foi efectuado um relevante investimento no seu equipamento e modernização, para além da contratação de recursos humanos – as unidades hospitalares de Lisboa, de onde provém os ‘especialistas da área’ devem ser os principais beneficiários, que assim evitam ter de se deslocar … que se desloquem os doentes….).
  3. Acabar com o SUMC da Póvoa de Varzim depois de se ter realizado obras de requalificação para responder às exigências de um SU com componentes pediátrica e cirúrgica (cumprindo o exigido pela anterior comissão!) e com o serviço em Vila do Conde.
  4. Acabar com o SU de Fafe – será que o SU de Guimarães que não tem, actualmente, condições para atender os doentes (mais do que recursos humanos, é mesmo falta de espaço!!!), pode receber os doentes de Fafe, Cabeceiras, Mondim e Celorico de Basto? Era muito interessante a publicação do movimento nos SU para se fazer a correcta análise e avaliação…
  5. Acabar com o SU de Santo Tirso – será que o SU de Famalicão pode receber os doentes de Santo Tirso? E tal justifica-se? E então qual a razão do investimento que foi realizado num valor superior a 1 milhão de euros, exactamente para cumprir com as exigências da anterior comissão, que foi por si liderada?
  6. Terminar com o SU do Hospital de S. João da Madeira (ou o tipo de serviço que lá existe …).
  7. Acabar com os SUMC de Chaves e Mirandela …
  8. Terminar com o SUB de Macedo de Cavaleiros … (se calhar terminar com o distrito de Bragança era mais simples e saía mais económico…).
  9. Por último, a recomendação para que não sejam efectuados investimentos nos novos hospitais da Póvoa do Varzim/Vila do Conde e de Vila Nova de Gaia/Espinho. Mas a comissão é para as urgências ou para as construções e reordenamento hospitalar?



O documento:
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5 respostas a Já conhece a Nova Rede Nacional de Urgência e Emergência?

  1. Carlos Mesquita - Cirurgião dos HUC, presidente da anterior direcção do Colégio de Emergência Médica da OM diz:

    Não deixa de ser preocupante a forma insidiosa como determinadas pessoas acabam por conseguir estar sempre próximas dos circuitos do poder, independentemente de quem governe. Esta nova comissão é uma reedição disfarçada da antiga e, tal como a anterior, pretenderá levar a Ordem a reboque, ao incluir a maioria dos membros da direcção da Comissão de Competência em Emergência Médica.
    Pelo modo como foi constituída (duvido que o Ministro se tenha apercebido destes pormenores), com um peso exagerado de emergencistas, anestesistas e intensivistas, acabará por ficar marcada por uma visão necessariamente distorcida do que são as Urgências. Os doentes com os quais estes médicos estão habitualmente envolvidos, se bem que os mais graves, representam, apenas 1 a 2 % do movimento real. A realidade é que há muito mais urgência para além da emergência… Com alguma ironia, comentavam alguns internos de Medicina e de Cirurgia da Urgência onde trabalho: “Mas o que é que estes tipos percebem de Urgências?”.

  2. Arsénio Santos - Internista que trabalha em SU diz:

    Caro Carlos Mesquita,

    É isso mesmo. Curto e grosso. Tiro no porta-aviões.
    Realmente, os serviços de urgência não são aquilo que alguns colegas imaginam porque, na realidade, ELES NÃO TÊM VERDADEIRA EXPERIÊNCIA DE URGÊNCIA. Quando muito, sabem alguma coisa dos tais 1-2% de doentes que lá acorrem (e é só com base nisso que raciocinam), mas desconhecem a realidade do dia-a-dia que lá se vive. E se acham que os doentes, os “restantes” 98%, que lá acorrem desaparecem por decreto, estão bem enganados.
    Não percamos a esperança em dias melhores…

  3. Vítor Branco diz:

    Lendo comentários de dois colegas por quem tenho muito apreço, mas com eles não alinhando inteiramente, lanço também a minha reflexão.
    Concordo que o autor do relatório que deu origem a estes posts continua muito concentrado na “geometria dos pontos de rede” e provavelmente menos interessado na balbúrdia de pequenas coisas que os S.U. absorvem diariamente.
    Mas penso que desprezar esforços continuados para oferecer uma ideia de organização da rede de S.U. não é útil.
    Acredito claramente em duas coisas:
    1. Os S.U. necessitam deseperadamente de equipas médicas dedicadas, para poderem oferecer aos doentes potencialmente graves um atendimento seguro, eficaz e consistente.
    2. Os nossos doentes necessitam desesperadamente de continuar a ter acesso fácil e rápido a um médico, que lhes resolva mil e um problemas e que hoje só encontram nos S.U., uma vez que os Centros de Saúde mantêm um funcionamento despudoradamente burocrático e minimalista.
    Com estes dois pressupostos, a essência das ideias do relatório parece dar alguma resposta – distribuição adequada de S.U. bem preparados e apetrechados; aumento da participação dos C.S. no atendimento das famosas pseudo-urgências (através do modelo da Consultas Aberta, ironicamente fazendo lembrar os extintos SAPs).

  4. Carlos Mesquita - Cirurgião dos HUC, presidente da anterior direcção do Colégio de Emergência Médica da OM diz:

    O que acho (e já tive oportunidade de o expressar no Tempo Medicina) é que, apesar das dificuldades do actual momento, seria bom aproveitá-lo para se avançar naquilo que ficou por definir em 2007, em termos de Rede de Urgência e Emergência (embora duvide que tal se consiga num contexto em que os intervenientes acabam por ser mais ou menos os mesmos…).
    Refiro-me, em concreto e em primeiro lugar, à necessidade de definição de Unidades de Urgência Básica (para além dos Serviços de Urgência Básica previstos na Rede) no âmbito das urgências hospitalares, médico-cirúrgicas ou polivalentes, questão que então ficou omissa mas fulcral caso se pretenda mesmo definir e criar equipas dedicadas. Apesar da omissão ou, até, aproveitando essa omissão, foi sempre este o meu entendimento enquanto responsável pelas Urgências dos HUC e de Aveiro, entre 2007 e 2011: que, tendo em conta a nossa realidade em termos de procura, a unidade de urgência básica constituísse um primeiro patamar de atendimento, destinado a descongestionar, de modo o mais qualificado possível, os outros patamares da urgência hospitalar.
    A questão seguinte não poderá deixar de ser a de determinar o número mínimo de especialistas (ou, melhor, detentores de competência) com que qualquer urgência hospitalar propriamente dita deverá contar em permanência, de modo a dar resposta imediata às situações de emergência, designadamente àquelas que estão enquadradas pelas chamadas “vias verdes” (assunto de que cada vez menos se fala…), numa perspectiva de controlo de dano e não, necessariamente, de tratamento definitivo, nem sempre possível.
    A partir daí, tudo se deveria desenrolar numa perspectiva diferente (com implicações em termos de financiamento): a de cada serviço de especialidade a assumir as suas urgências ou, por outras palavras, a da disponibilidade de cada especialidade para apoiar quer a Urgência do seu hospital quer as dos hospitais e serviços de uma determinada região, no pressuposto de que a primeira obrigação de qualquer médico é para com aquilo que é urgente e só depois para com aquilo que é programável.
    Em suma, uma alteração de paradigma que evitaria muitos desperdícios e, em última análise, a todos beneficiaria, pela dinâmica diferente que poderia proporcionar.

    • Carlos Mesquita - Cirurgião dos HUC, presidente da anterior direcção do Colégio de Emergência Médica da OM diz:

      Decorridos dois anos e meio quer sobre as reuniões que a Ordem e a Competência em Emergência Médica organizaram em Coimbra quer sobre as últimas eleições para os Colégios – as próximas deverão ser agora em 2012 –, pouco se avançou, que se saiba, em termos de audição dos Colégios interessados na questão da formação específica em Medicina de Urgência e Emergência, questão que estará longe de ser consensual. Como é sabido, a menos que se defina um enquadramento novo para a especialidade que alguns pretendem ver criada, será sempre de competição com as existentes, designadamente Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna, Ginecologia/Obstetrícia e Pediatria, que se estará a falar. Quanto à Competência em Emergência Médica, terá entrado em hibernação, se é que ainda existe… A verdade é que nunca mais se ouviu falar dela.
      Em minha opinião, repescando um artigo publicado há cerca de ano meio no TM e dando continuidade a um outro ainda recente, não é possível dissociar esta dis­cussão de uma outra, mais geral, que é a da Rede de Serviços de Urgência e da definição de um perfil médico para as unidades de urgência básica. Só assim se construirá um modelo formativo coerente, o qual não terá de ser, necessariamente, o do internato, dada a existência de uma alternativa muito mais elástica, de mais fácil aceitação por todos, mais económica e de mais fácil implementação, a curto prazo, que é a do ciclo de estudos especiais. Por outras palavras, insisto, a discussão devia ser, não, em torno da criação de uma nova especialidade mas, sim, em torno da criação de uma nova competência. Quer se queira quer não, aquilo de que estamos a falar é, pura e simplesmente, clínica geral de agudos — ou uma versão mo­derna do João Semana, uma imagem nobre da Medicina portuguesa que, infelizmente, se tem vindo a perder e importará recuperar. E, quando me refiro a unidades de urgência básica em vez de serviços de urgência básica, faço-o propositadamente. Embora a legislação seja omissa, elas tanto terão sentido sob a forma de serviços autónomos (Serviços de Urgência Básica, SUB) como sob a forma de unidades incorporadas numa urgência hospitalar.
      Assim entendidas as coisas, tudo ficaria mais perceptível, com lugar para todos, relações de trabalho baseadas no respeito mútuo e um atendimento mais homogéneo, quer nos grandes centros quer à periferia, sem sobrecarga desnecessária das valências hospitalares.
      Resta-nos saber, decorridos três anos, o que se passou com a proposta de criação de um ciclo de estudos especiais de Medicina de Urgência e Emergência, da autoria da comissão do Serviço de Urgência dos HUC, aprovada pela Ordem dos Médicos, publicada na ROM, e que, por motivos que sempre escaparam ao conhecimento do comum dos mortais, terá “estacionado” em determinado gabinete da Direcção-Geral de Saúde.

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